
Isolada do resto do mundo,
o seu olhar desdobra-se por entre aquelas vastas montanhas…
Ela fecha os olhos, deixa o ar fresco entrar lentamente dentro de si… por momentos
pensa nele… sabe que não deve, mas não consegue evitar o
encontro inesperado com a saudade…
Ele está no vento que lhe faz dançar os caracóis, está nas pequenas flores brancas que a fazem sorrir, está na relva que lhe faz cócegas suaves nos pés descalços… é impossível não recordar o seu rosto ou a suavidade com que os seus braços a abraçavam…
Passadoooo! Gritam as vozes na sua cabeça… Ela sabe, está cansada de ouvir as vozes amigas a implorar-lhe que se liberte dele, que viva apenas o presente. Pedem-lhe de forma estridente que abra de novo o coração,
dizem-lhe com toda a convicção do mundo que um grande amor esquece-se apenas com um novo grande amor… não a compreendem. Foram traídos, magoados, humilhados… foram abandonados pelas pessoas que amavam inocentemente.
Ela não.
Ela foi amada até ao último segundo.
Viveu o que muitos procuram uma vida inteira e ainda assim não encontram, viveu o amor sincero, louco, simples, mágico e cúmplice de que tanto falam as histórias encantadas.
Viveu o seu conto de fadas sem ser princesa, não precisou de flores brilhantes no cabelo para encontrar o príncipe, nem tão pouco das asas de borboleta para voar pelos campos de amores-perfeitos coloridos…
Olhos agora fixos no horizonte cor-de-laranja … a
dor chora silenciosamente através dos seus olhos castanhos… o rosto fecha-se…
É a presença fugaz da saudade que mais a castiga…é a promessa de um regresso deixado em aberto que mais a tortura… ela chora por ele…ele chorou por ela.
Ela fica em silêncio,
ele ficou em silêncio.
Ambos, calados, sofrem a maior dor do mundo, a de amar, ser amado e ainda assim, pela distância e pela urgência de resolver a vida de outra pessoa, param as suas. Ela recorda o momento em que ele pede-lhe que fique... e ela quer ficar...
Ele ajoelha-se, implora, chora, abraça-a…ela, sabendo que a vida de outra pessoa dependia inteiramente daquela decisão, chora, ajoelha-se com ele, implora-lhe que pare de chorar…sussurra-lhe carinhosamente por entre o sufoco do nó na garganta e dos soluços sofridos, que volta, explica-lhe desesperadamente a situação, promete-lhe voltar, só não sabe quando… ele compreende, ela chora ainda mais… ele chora ainda mais, sofrem um pouco mais assim, juntos, como se o corpo, o coração e o sofrimento fosse apenas um…
Não se despediram, não se abraçaram pela última vez, não se beijaram pela última vez. Ele por entre lágrimas piscou-lhe o olho e disse “até logo”, ela, com o peso do mundo sobre os seus ombros, consegue apenas dizer ”amo-te” e ele completa…”para sempre”… caminham em direcções opostas, param, os seus olhares cruzam-se, prometem silenciosamente um reencontro. Ela entra no avião, ele entra no carro. Ele fica, ela percorre milhas. Algumas horas depois, um telefonema:
-(...)Quero envelhecer a teu lado…quero amar-te e proteger-te pela vida inteira…Deixas-me fazê-lo?? - Ela chora, ele chora, ela diz que sim, as palavras ficam mudas….
-Então…casas comigo??
-Podes ter a certeza que sim!…
-Volta depressa, eu também preciso que salves a minha vida…que me salves desta dor…
-…Eu volto, Prometo!…amo-te!
- Cumpres a tua promessa?…
-Cumpro e tu?
-…Podes apostar… nem que tenha de esperar esta vida e mais duas… o meu coração é teu!…
- Amo-te (…)
O sol já se pôs, ela acende um cigarro, limpa as lágrimas. Uma passa atrás da outra… aquela foi a última vez que conversaram.
Ela ligou, ele não atendeu. Voltou a ligar, ele continuou sem atender. Algumas horas depois, é acordada pela doce música que ele escolheu para o telemóvel dela…o seu nome aparece no ecrã, ela sorri, “já não era sem tempo…” do outro lado silêncio… choro… uma voz diferente, era a mãe dele…” acidente, carro, figueira…” ela deixa cair o telemóvel, senta-se na cama, aperta o peito, grita desesperadamente…
Não conseguiram cumprir a promessa…
Limpa novamente as lágrimas…
Ela sorri, porque sabe que foi amada por alguém especial até ao último segundo. Viveu o que muitos procuram uma vida inteira e ainda assim não encontram, viveu o amor sincero, louco, simples, mágico e cúmplice de que tanto falam as histórias encantadas. Viveu o seu conto de fadas sem ser princesa, não precisou de flores brilhantes no cabelo para encontrar o príncipe, nem tão pouco das asas de borboleta para voar pelos campos de amores-perfeitos coloridos…
Olhos postos num horizonte agora mais escuro, a dor chora silenciosamente através dos seus olhos castanhos… o rosto fecha-se… ela vai ama-lo para sempre, mesmo que não dê mais voz à palavra guardará, para sempre em si, o sentimentos, as memórias e a promessa que um dia fizeram…
De 0 a 20: Pode ser que um dia volte a amar… Amanhã talvez…